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hamelin

3 de novembro de 2009

Teatro

          “Hamelin” é nome do instigante espetáculo de teatro cujo protagonista é o ator Vladimir Brichta. E para tratar de um tema tão complexo e tão atual como a pedofilia, este espetáculo se valeu do excelente texto de Juan Mayorga sob a direção de André Paes Leme que contou com a magnífica atuação dos atores Alexandre Dantas, Alexandre Mello, Cláudia Ventura, Oscar Saraiva e Patrícia Simões.

            Há duas palavras que poderiam definir bem todo este trabalho: criatividade e simplicidade. Na peça, o mais importante é a palavra, o significado das palavras ditas, a importância assustadora das palavras omitidas e a valorização do silêncio entre as palavras. Os atores não possuem figurinos específicos (vestem-se com roupas comuns como se fossem também espectadores); o palco não é adornado com cenários nem iluminação, pois constitui-se apenas de uma caixa preta com uma mesa, cadeiras, xícaras para café, folhas brancas de papel A4 e algumas luminárias com luz amarela comum que servem como pontos de luz da cena para criar um ambiente sombrio, hostil e inquisitivo. O resto da ambientação deve ficar a critério da imaginação do público presente.

           O enredo gira em torno de um juiz que tenta desarticular uma rede de pedofilia através da denúncia de que  um menino sofria abusos sexuais de um homem próximo a sua família. Os fatos vão se desenrolando como uma trama policial com pequenos detalhes que são revelados moderadamente e que acabam por lançar muitos questionamentos como: até que ponto as famílias são inocentes ou cúmplices em alguns casos? Qual a melhor maneira de combater esse tipo de crime? Existe tratamento para o comportamento errôneo de um pedófilo?

            O texto não entra no mérito do assunto em nenhum momento; não condena nem absolve acusados, pois todo e qualquer julgamento deve ser feito pela platéia. O que há de se destacar, além da abordagem de um assunto tão contemporâneo, é a interpretação densa de cada ator que se transmuta em diferentes personagens em questão de segundos e ainda faz as vezes de narrador como numa de espécie de jogo de papéis alternados. Cada ator possui o tempo certo da cena, o texto afiado, um discurso convincente e um gestual que fala mais que as palavras. De todo o elenco, o único ator que não vive vários personagens simultâneos é Vladmir Brichta, o juiz Monteiro que é conduzido pelos outros personagens à confusão, à perplexidade e à sensação de impotência diante do caso a resolver. No fim das contas, Monteiro – um homem que tem o poder da justiça nas mãos – se sente como um ser humano qualquer: pequeno diante dos problemas do mundo.

            “Hamelin” aposta na neutralidade e no minimalismo que podem ser observados até mesmo na discreta (e quase imperceptível) trilha sonora criada por Lucas Ciavatta e Marcelo Alonso Neves constituída por sons de máquina de escrever, barulhos característicos do trânsito de carros nas ruas, tilintar de copos com cerveja em bares imaginários. A peça não se utiliza de exageros nem de máscaras para desnudar a realidade que acontece em muitos lares do Brasil e do mundo. E como se não bastasse a adoção desta temática delicada, ainda propõe a discussão da linguagem da cena numa singela homenagem ao teatro contida nas falas dos narradores. Vale a pena assistir!

Hamelin

Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo)

Em cartaz até 29/11/09

Quinta a Sábado: 19:30h

Domingo: 18h



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Este post foi escrito por:

Rafael Nolleto - este autor já contribuiu com 22 posts no midiatico.com.


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