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a arte de correr na chuva

17 de setembro de 2009

Livros

Dia desses eu fiz uma grande compra de livros pela internet e, dentre os títulos que escolhi, estava “A Arte de correr na chuva”, do escritor norte-americano Garth Stein. Certamente eu devo ter comprado esse livro, dentre tantas outras opções, por causa da minha paixão por cachorros. E creio que, para quem é louco por cães, é muito prazeroso olhar ao redor e perceber que existe uma enorme quantidade de produtos para atender a esse público que, como eu, fica todo bobão quando vê um simples cãozinho. E o que se pode ver nas livrarias e nos cinemas é essa avalanche de livros e filmes tipo “Marley e Eu” e uma série de outros filmes tanto antecessores quanto sucessores de Marley. (Quem não se lembra de Lassie?) Esses livros e (ou) filmes, na verdade, utilizam-se da simplicidade e ingenuidade dos cachorros para atingir as mais profundas emoções de nós humanos e fazer-nos pensar sobre nossos sentimentos e atitudes.

Quando peguei o livro para ler, fui logo surpreendido por constatar que “A arte de correr na chuva” presta uma verdadeira homenagem ao mundo do automobilismo. Toda a história é contada por um cachorro-escritor chamado Enzo que descreve sua vida ao lado de seu dono (Denny) e transmite ao leitor muitos ensinamentos que aprendeu através do contato com o universo das corridas. Para Enzo, Denny é um grande companheiro, é como um mestre com quem aprende diariamente ao ouvir os conceitos que ele foi absorvendo ao longo de sua vida como fã e, posteriormente, como piloto de Fórmula 1.

Desde o início o livro é dramático, relata situações difíceis que exigem um alto nível de auto-estima e força de vontade para transpor as barreiras do cotidiano. E é assim que, página a página, o canino Enzo nos fala frases que alimentam nosso instinto de superação e nos colocam como senhores do nosso próprio futuro. Uma das frases inspiradoras que é repetida por todo o livro é: “O seu carro vai para onde vão os seus olhos” que é uma metáfora para mostrar que o homem é o condutor de sua própria vida e, portanto, total responsável pelas coisas que conquista ou deixa de conquistar.

O livro inteiro é cheio de metáforas. Em alguns momentos da leitura, pode-se achar o livro um tanto piegas, sentimental demais, dramático demais, porém, logo em seguida, o autor quebra o clima e enche a trama com mais acontecimentos, mais ensinamentos e mais momentos legais vividos pela dupla Enzo e Denny que, apesar das adversidades, conseguem contornar todas as situações com bom humor e a força dos amigos.

De acordo com o enredo, Enzo é um cão que compreende o ser humano e pensa como ser humano apesar de não poder se expressar pela fala. Ele foi alfabetizado assistindo canais infantis de Tv a Cabo e, aos poucos, foi aprendendo as palavras e o seu sentido. Isso lhe proporcionou desenvolver um entendimento e um alto nível de raciocínio que infelizmente não poderia ser manifestado por causa de sua condição canina. Mas, à sua maneira, ele acompanha toda a trajetória de Denny e o ajuda – com gestos – a enfrentar a dureza da vida. Enzo é viciado em TV e gosta de ver vários canais, porém sua grande paixão é assistir as corridas de Fórmula 1 seja na TV ou pelas fitas de vídeo gravadas por Denny. O mais interessante de tudo é observar as coisas pela ótica do cachorro, perceber seus sinais, suas angústias agora reveladas pelas palavras e ver que esse personagem dialoga o tempo inteiro com seu dono embora muitas vezes seja incompreendido. E aí o livro o faz pensar no que a gestualidade do cãozinho que você tem em casa pode revelar. É inevitável fazer-se a pergunta: Teria o meu cachorro a mesma compreensão das coisas como Enzo?

Fantasias à parte e além dos estímulos de auto-ajuda trazidos pelo livro, “A arte de correr na chuva” é um romance que instiga um pensamento reflexivo sobre aqueles que não tem voz, que por um motivo ou outro não podem se expressar ou, quando se expressam, não são compreendidos. É um livro que estimula o leitor a olhar ao seu redor e perceber as sutilezas dos gestos e das atitudes das pessoas e (por que não?) dos animais que nos cercam. No fim das contas o título do livro poderia ser “A arte de vencer apesar das dificuldades”, mas ainda bem que Deus inventou a metáfora e Garth Stein a utilizou com brilhantismo no título da obra. Título, aliás, claramente inspirado no grande homenageado do livro, o piloto Ayrton Senna, que sempre vencia no embalo da chuva. Leitura recomendada!



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Rafael Noleto - este autor já contribuiu com 27 posts no midiatico.com.

Rafael Noleto é mestrando em Antropologia (UFPA) e graduado em Música (UEPA). Desenvolve pesquisas sobre música e sexualidade. Canta e compõe nas "horas vagas".

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