Dia desses eu fiz uma grande compra de livros pela internet e, dentre os títulos que escolhi, estava “A Arte de correr na chuva”, do escritor norte-americano Garth Stein. Certamente eu devo ter comprado esse livro, dentre tantas outras opções, por causa da minha paixão por cachorros. E creio que, para quem é louco por cães, é muito prazeroso olhar ao redor e perceber que existe uma enorme quantidade de produtos para atender a esse público que, como eu, fica todo bobão quando vê um simples cãozinho. E o que se pode ver nas livrarias e nos cinemas é essa avalanche de livros e filmes tipo “Marley e Eu” e uma série de outros filmes tanto antecessores quanto sucessores de Marley. (Quem não se lembra de Lassie?) Esses livros e (ou) filmes, na verdade, utilizam-se da simplicidade e ingenuidade dos cachorros para atingir as mais profundas emoções de nós humanos e fazer-nos pensar sobre nossos sentimentos e atitudes.
Quando peguei o livro para ler, fui logo surpreendido por constatar que “A arte de correr na chuva” presta uma verdadeira homenagem ao mundo do automobilismo. Toda a história é contada por um cachorro-escritor chamado Enzo que descreve sua vida ao lado de seu dono (Denny) e transmite ao leitor muitos ensinamentos que aprendeu através do contato com o universo das corridas. Para Enzo, Denny é um grande companheiro, é como um mestre com quem aprende diariamente ao ouvir os conceitos que ele foi absorvendo ao longo de sua vida como fã e, posteriormente, como piloto de Fórmula 1.
Desde o início o livro é dramático, relata situações difíceis que exigem um alto nível de auto-estima e força de vontade para transpor as barreiras do cotidiano. E é assim que, página a página, o canino Enzo nos fala frases que alimentam nosso instinto de superação e nos colocam como senhores do nosso próprio futuro. Uma das frases inspiradoras que é repetida por todo o livro é: “O seu carro vai para onde vão os seus olhos” que é uma metáfora para mostrar que o homem é o condutor de sua própria vida e, portanto, total responsável pelas coisas que conquista ou deixa de conquistar.
O livro inteiro é cheio de metáforas. Em alguns momentos da leitura, pode-se achar o livro um tanto piegas, sentimental demais, dramático demais, porém, logo em seguida, o autor quebra o clima e enche a trama com mais acontecimentos, mais ensinamentos e mais momentos legais vividos pela dupla Enzo e Denny que, apesar das adversidades, conseguem contornar todas as situações com bom humor e a força dos amigos.
De acordo com o enredo, Enzo é um cão que compreende o ser humano e pensa como ser humano apesar de não poder se expressar pela fala. Ele foi alfabetizado assistindo canais infantis de Tv a Cabo e, aos poucos, foi aprendendo as palavras e o seu sentido. Isso lhe proporcionou desenvolver um entendimento e um alto nível de raciocínio que infelizmente não poderia ser manifestado por causa de sua condição canina. Mas, à sua maneira, ele acompanha toda a trajetória de Denny e o ajuda – com gestos – a enfrentar a dureza da vida. Enzo é viciado em TV e gosta de ver vários canais, porém sua grande paixão é assistir as corridas de Fórmula 1 seja na TV ou pelas fitas de vídeo gravadas por Denny. O mais interessante de tudo é observar as coisas pela ótica do cachorro, perceber seus sinais, suas angústias agora reveladas pelas palavras e ver que esse personagem dialoga o tempo inteiro com seu dono embora muitas vezes seja incompreendido. E aí o livro o faz pensar no que a gestualidade do cãozinho que você tem em casa pode revelar. É inevitável fazer-se a pergunta: Teria o meu cachorro a mesma compreensão das coisas como Enzo?
Fantasias à parte e além dos estímulos de auto-ajuda trazidos pelo livro, “A arte de correr na chuva” é um romance que instiga um pensamento reflexivo sobre aqueles que não tem voz, que por um motivo ou outro não podem se expressar ou, quando se expressam, não são compreendidos. É um livro que estimula o leitor a olhar ao seu redor e perceber as sutilezas dos gestos e das atitudes das pessoas e (por que não?) dos animais que nos cercam. No fim das contas o título do livro poderia ser “A arte de vencer apesar das dificuldades”, mas ainda bem que Deus inventou a metáfora e Garth Stein a utilizou com brilhantismo no título da obra. Título, aliás, claramente inspirado no grande homenageado do livro, o piloto Ayrton Senna, que sempre vencia no embalo da chuva. Leitura recomendada!












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