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Yes, nós temos Carmen Miranda na música

19 de maio de 2010

Música

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O início da carreira de Carmen Miranda na música se confunde com o próprio início da música popular brasileira comercial. Mas se engana quem pensa que Carmen sempre sonhou em ser cantora. Seduzida pelo brilho glamouroso das artistas de Hollywood e pela novidade tecnológica que o cinema representava, seu sonho era tornar-se uma famosa atriz. E tinha tudo para isso porque era inteligente, desinibida, fotogênica, ávida por aprender e com um feeling incrível para a moda. Porém, o cinema no Brasil dos anos 30 ainda era apenas um projeto embrionário e o que restava a Carmen era investir na sua personalidade extremamente musical, efusiva e carnavalesca para que se tornasse uma cantora no mais novo meio de comunicação que fascinava os brasileiros: o rádio.

Seu primeiro sucesso foi “Taí” (Joubert de Carvalho) e, a partir de então, sua carreira decolou em linha ascendente. Joubert não teve dúvidas para oferecer-lhe a marchinha, pois ao ouvi-la cantar numa gravação, declarou que escutando tocar no era como vê-la. Carmen Miranda foi uma artista muito importante na música brasileira, pois a partir dela traçou-se todos os parâmetros para a consolidação das bases norteadora da produção musical no Brasil. Suas interpretações instituíram, por exemplo, que uma cantora deveria procurar imprimir sua personalidade nas músicas que cantava. Ninguém melhor do que ela para trabalhar as inflexões vocais, os pequenos improvisos, discretas exclamações maliciosas entre as notas cantadas e a ginga necessária para “temperar” as composições de gente como Synval Silva, Assis Valente, Dorival Caymmi, Ary Barroso, entre outros.

Assim como o rádio, o samba também era uma novidade, pois surgira há poucos anos na virada do século XIX para o século XX. Antes de Carmen, não havia um consenso geral sobre como interpretar o samba de uma forma interessante comercialmente usando a voz na medida certa para que fosse feito o registro fonográfico adequado. Deve-se lembrar que o processo de gravação naquela época contava com recursos tecnológicos bem mais limitados e era difícil para um cantor popular (que não usa a técnica do canto lírico), com pouco volume vocal, gravar algo sem que sua voz ganhasse um aspecto opaco. Mas Carmen Miranda e Mário Reis fizeram a mágica: foram os primeiros cantores que tiveram um comportamento musical de um típico cantor popular moderno, o que foi uma atitude pioneira e revolucionária que só seria retomada (embora de maneira diferente) , muito mais tarde, pela defesa que João Gilberto fez em prol do canto sob medida.

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Carmen Miranda foi a responsável pelo lançamento de incontáveis clássicos da música popular. Foram inúmeras marchinhas de carnaval e muitos sambas. Revendo sua discografia é quase inacreditável a quantidade de músicas lançadas por ela e que se tornaram clássicas e obrigatórias no repertório brasileiro. Só para dar um exemplo: “Balancê”, “Na baixa do sapateiro”, “Uva de Caminhão”, “Taí”, “Cantoras do Rádio” (cantando com sua irmã Aurora), “O que é que a baiana tem?”, “Camisa Listada”, “O samba e o tango” e tantas músicas incríveis desse período. Todos os compositores queriam ser gravados por ela, pois Carmen era sinônimo de sucesso, sua popularidade era crescente, sua presença em eventos era muito requisitada. Carmen, em pouco tempo, transformou-se na maior estrela do rádio brasileiro, solicitada, inclusive, para a publicidade tendo sido a primeira garota-propaganda do Leite de Rosas. Carmen Miranda ditava moda.

Sua imagem sempre foi associada ao carnaval. Não havia carnaval sem as marchinhas e sambas com balanço malicioso característico da obra de Carmen. Seu sucesso foi tanto que não demorou a tornar-se célebre, com o melhor salário da época, suplantando até o sucesso de Francisco Alves. A cantora representou a vitória da mulher numa época em que era impensável ultrapassar os êxitos do homem e num cenário em que os movimentos feministas ainda não tinham a força que ganhariam com o passar dos anos. Carmen Miranda era uma unanimidade e, desde que gravou “Taí” (Joubert de Carvalho), sua agenda ficou lotada com inúmeros compromissos fossem eles shows ou simplesmente aparições em eventos. Sua ascensão repentina na música motivou até mesmo outros irmãos a insvestir numa carreira musical. De todos eles, a única que realmente levou a sério foi Aurora que para sempre teve sua imagem associada à de Carmen e que também lançou grandes clássicos da música brasileira como “Cidade Maravilhosa” (André Filho).

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Além de ter suas qualidades como cantora (as quais muitos críticos futuramente iram contestar), Carmen Miranda tinha um diferencial muito importante: sua presença cênica era convidativa por causa da espontaneidade de seus gestos, de seu canto e pela expressividade com que se comunicava musicalmente. Ela teve todos os compositores aos seus pés, exceto Noel Rosa que a considerava apenas uma cantora carnavalesca que servia tão somente para cantar marchinhas e não os sambas que ele compunha. De fato, da obra de Noel Rosa, Carmen gravou só três músicas que ficaram obscuras em sua discografia. Mas Carmen possuía uma versatilidade incrível na voz (que, certamente, contrariava a teoria de Noel Rosa) podendo emprestá-la também a composições mais tristes como “Adeus, Batucada”.

Como se a voz e o domínio de palco não bastassem, Carmen tinha algo que conquistava a todos que com ela trabalhavam: profissionalismo misturado a modéstia e bom humor. Em sua intimidade, adorava contar piadas, era generosa financeiramente com seus amigos músicos mais necessitados (o que manteve mesmo após ir para os EUA), adorava receber as pessoas em sua casa, tratava bem os fãs, não possuía estrelismos típicos das artistas de sucesso. Por tudo isso, Carmen tornou-se a artista mais querida da época e de todos os tempos no Brasil.  E a todo esse conjunto de características se deve a Carmen Miranda o título de maior embaixadora do samba, da música de carnaval, da cultura e do povo do Brasil. Tudo o que em Carmen Miranda era fascinante tornou-se, com o passar do tempo, mitológico e ajudou a constituir a sua imagem de deusa no imaginário do povo brasileiro. O sucesso de Carmen Miranda na música extrapolou os limites do Brasil e conquistou, inclusive, a Argentina para onde a cantora sempre viajava acompanhada de sua irmã, do cantor e compositor Almirante, de Francisco Alves e também de um famoso conjunto vocal e instrumental que a era a sensação do momento: o Bando da Lua. O sucesso de Carmen Miranda extrapolou até mesmo as fronteiras da música e foi parar nas telas de cinema. Estreou no incipiente cinema nacional e foi direto para o império de Hollywood. Carmen levou seu gingado para os filmes. E a batucada continua no próximo post…



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Rafael Nolleto - este autor já contribuiu com 25 posts no midiatico.com.


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