O mundo inteiro comemora os 40 anos do Festival de Woodstock, realizado no longínquo ano de 1969. De fato, é inegável que este evento ultrapassou as fronteiras do mundo da música e se configurou como um dos grandes acontecimentos marcantes do século XX. Isto se deu porque o famoso festival tinha como base uma filosofia que propunha à sociedade outras posturas comportamentais nas quais eram pregadas as liberdades de pensamento, expressão e sexualidade que deveriam ser vividas num contexto pacífico de respeito ao próximo.
Woodstock foi um marco também por reunir algumas das maiores lendas do rock como a gritante Jenis Joplin e o inigualável guitarrista Jimi Hendrix. Além de reunir astros da música e um turbilhão de ideais revolucionários, o festival reuniu um público com cerca de 500 mil pessoas capazes de enfrentar tempestades, lama, escassez de comida e condições precárias de infra-estrutura física para fazer valer na prática o lema “Faça amor, não faça guerra”.
O impacto desse evento foi tão grande que até hoje a sua realização povoa a mente das pessoas, seja na memória de quem foi, na frustração de quem não foi, no DNA dos filhos dessa geração ou na imaginação de quem nem havia nascido na época. De tudo o que mais impressiona, é saber dos sobreviventes do festival como, por exemplo, o casal Bobbi e Nick Ercoline que se conheceu naquela época e que, 40 anos depois, permanecem casados provando que os ideais de Woodstock estão vivos. É admirável que um casal que viveu em pleno apogeu da disseminação da ideologia da liberdade sexual esteja junto, numa relação aparentemente monogâmica e equilibrada segundo os parâmetros de normalidade ditados pela sociedade. É uma prova também de que os ideais de Woodstock podem ter sido aprimorados, adaptados ou percebidos sob uma outra ótica amadurecida, mas que em nenhum momento deturpa a essência da filosofia hippie da época.
O mundo nunca mais foi o mesmo depois de Woodstock. E todo acontecimento tem seu saldo positivo e negativo. Como saldo positivo, o festival representou muitas conquistas: liberdade de expressão; liberdade sexual; o estabelecimento da força jovem; a exposição das necessidades das minorias; o fortalecimento do potencial feminino frente a um mundo machista e o congraçamento de brancos, negros, gays, ricos e pobres. Como saldo negativo, pode-se considerar a ingenuidade que levou a muitos jovens da época a acreditarem piamente nos ideais libertários e segui-los ao pé da letra (antes, durante e depois do festival), o que causou muitas mortes por overdose ou favoreceu a uma liberação sexual desenfreada que desembocaria na grande e rápida proliferação do vírus HIV no início dos anos 80.
O acordes de Woodstock ecoaram por todo o planeta e refletiram aqui no Brasil fortalecendo ainda mais o movimento Tropicalista. Woodstock foi realizado em agosto de 1969, porém, há mais ou menos um ano atrás, em 1968, o lendário LP “Tropicália ou Panis et Circensis” havia sido gravado aqui no Brasil por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes e Nara Leão sob os arranjos de Rogério Duprat. O álbum evidenciava aqui no Brasil o efervescente contexto mundial das aspirações dos jovens da época que ansiavam por liberdade, harmonia e experimentalismo em todos os setores da vida. O Festival de Woodstock veio apenas ratificar a força já existente de nossos brasileiros tropicalistas. E, alem dos músicos, outros brasileiros sentiram o efeito psicodélico de Woodstock, estão entre eles o diretor de teatro Gerald Thomas, o escritor Joel Macedo e o artista plástico Antonio Petcov. O fato é que Woodstock inspirou outros festivais pelo mundo como, em 1970, na Inglaterra, realizou-se o Festival da Ilha de Wight que contou, aliás, com a presença dos exilados Caetano e Gil aliados ao canto fatal de Gal Costa.
Woodstock vive na memória dos nascidos no século XX e sobreviverá para a posteridade através do emblemático documentário realizado na época e de constantes lançamentos comemorativos pelos 40 anos do evento, como o livro “Aconteceu em Woodstock” (Elliot Tiber) e o filme “Taking Woodstock” (Ang Lee). Os efeitos de Woodstock ainda pairam pela sociedade e a ânsia por tolerância e garantia de direitos iguais a todos ainda é a mesma, embora em outras proporções.











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