Um dos lançamentos literários que mais me empolgou ano passado foi “O santo sujo” do jornalista Humberto Werneck. Logo de cara vê-se que se trata de um trabalho primoroso desde o design do livro até a riqueza de informações sobre a vida de uma personalidade, até então, obscura da música brasileira.
A princípio fiquei me perguntando o que conduziu o interesse de Werneck – que já lançara livros sobre o famoso e reconhecido Chico Buarque – a publicar uma biografia sobre um compositor tão pouco lembrado e com uma obra tão escassa quantitativamente falando. Talvez a resposta seja muito óbvia justamente pela grande oportunidade que o jornalista teve de lançar um material sobre alguém de quem tão pouco se falou e, portanto, tão pouco se conhece.
E por esse motivo creio que “O santo sujo” caiu como uma bomba no universo musical, pois acabou por dissecar a vida de Jayme Ovalle fornecendo detalhes preciosos, minúcias úteis para qualquer pesquisador ou apreciador musical.
Devorei o livro no menor tempo que pude e foi uma excelente oportunidade para saber da vida do adolescente que saiu de Belém e, por conta de algumas adversidades, mudou-se para o Rio de Janeiro para fazer-se compositor. Foi muito revelador saber da convivência de Jayme Ovalle com os extremos da cultura erudita e popular; sua realidade boêmia; a influência que exerceu inconscientemente sobre compositores como Villa-Lobos – que sutilmente lhe roubara idéias musicais – e Luciano Gallet; a confraria de amigos que formou junto com o poeta Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt; o surpreendente companheirismo que brotou entre Ovalle e o jovem escritor Vinícius de Moraes; o incômodo causado por Ovalle em Mário de Andrade. O livro tem seu mérito por mostrar a transição cultural ocorrida entre os séculos XIX e XX no Brasil; os pormenores da política e sociedade paraense e carioca; o surgimento do século da modernidade tendo Jayme Ovalle como pano de fundo.
Além desses aspectos históricos, essa biografia desnuda uma personalidade incomum de um homem com formação acadêmica e musical inexistente que conseguiu transitar entre os membros da elite intelectual brasileira – fato que provocara ferrenhas críticas de Mário de Andrade e (por que não?) até certo ciúme por conta da grande aproximação com Manuel Bandeira, amigo que se tornou seu grande defensor contribuindo imensamente para que não houvesse injustiças quanto à capacidade criadora de Ovalle.
E, de fato, a criatividade era muito presente na mente inquieta do compositor. Isso rendeu-lhe feitos para além da música como, por exemplo, a criação da Nova Gnomonia – teoria inventada por Ovalle através da qual era possível dividir as personalidades humanas em categorias específicas ou misturadas entre si – que se tornou assunto cult e, ao mesmo tempo, uma mania particular do grupo de intelectuais que rodeava Jayme Ovalle. Fora essa inventividade que também rendeu ao compositor um ardoroso misticismo incomum que se manifestava em sua diferente forma de se relacionar com Deus causando-lhe o apelido de “místico”.
A religiosidade mostrou-se até na quantidade de obras produzidas por ele, somente 33, número que ele não quis ultrapassar devido ser a idade de Cristo. (Ou seria esta apenas uma desculpa para não tentar criar mais?) A mais famosa de suas canções, aquela que o eternizou é, sem dúvida, “Azulão” com poema de Manuel Bandeira. Essa música foi interpretada por inúmeros cantores populares e eruditos entre eles Maria Bethânia, Inezita Barroso, Francisco Alves, Marina Monarcha, Maria Lúcia Godoy e Nara Leão. Sem dúvida é a canção-síntese da musicalidade de Ovalle: curta, singela, direta e bonita.
Humberto Werneck foi feliz quando resolveu iniciar essa pesquisa tão meticulosa. Fuçou discografias, leu livros, entrevistou personalidades e foi atrás de artigos esquecidos na imprensa nacional. Tudo isso contribuiu significativamente para emergir do ostracismo um compositor brasileiro injustiçado por não ter registrado em partitura o muito que sua mente compunha ou não ter escrito em seus papéis as frases inusitadas que dizia, os poemas espontâneos, as percepções peculiares que tinha sobre a vida. Por tudo isso, Jayme Ovalle tornou-se um ente querido no meio intelectual brasileiro e sobre esse meio exercia uma influência forte e oculta capaz de fazer com que seus fiéis amigos lhe rendessem homenagens, escrevessem artigos sobre sua extraordinária pessoa e baseassem nele alguns de seus pensamentos e criações.
Em “O santo sujo”, Humberto Werneck presenteia a história da música brasileira não apenas com a narração da vida de Jayme Ovalle, mas com um documento para a posteridade.













21 de setembro de 2009
Leitura obrigatória, inclusive, por trazer informações muito importantes como o fato de que a reurbanização do Rio de Janeiro no início do século XX teve como inspiração a estrutura erguida em Belém, capital do Pará. Explica a origem do nome favela, descreve a fortuita vida cultural dos intelectuais de outrora e dá vida a um pensador que de outro jeito estaria relegado ao esquecimento. Li e recomendo!