Sabe aquela cantora que você acha que tem um trabalho legal, mas nunca parou para ouvir direito? Pois é, a Vanessa da Mata até pouco tempo atrás era uma cantora da qual eu gostava de longe, mas não conhecia a fundo os seus álbuns. E isso mudou numa viagem em que passei muitas horas dirigindo e (claro!) ouvindo música.
Mas antes de contar da tal viagem, eu tenho que dizer que há muitos anos eu estava vendo o programa “Metrópolis” na TV Cultura e ao final do programa uma certa Vanessa da Mata apareceu para dar uma curta entrevista e cantar a música que chamaria os créditos que finalizariam a atração. Ela apareceu tal qual hoje: cabelão assanhado, magra, vestidão meio hippie e voz afinada. Não lembro que música cantou e sobre o que foi falar, mas sei que foi por esta época que o nome de Vanessa começava a ser de fato comentado em todo o país por conta de que uma composição sua, em parceria com Chico César, dava nome ao disco da veterana Maria Bethânia. A música era “A Força que Nunca Seca”. Depois disso, ainda notei a presença de Vanessa como compositora em mais um trabalho de Bethânia (“Maricotinha” – com o samba “O Canto de Dona Sinhá”) e no álbum “Sol da Liberdade” no qual Daniela Mercury gravou “Viagem”.
O tempo foi passando e Vanessa da Mata acabou por lançar seu primeiro trabalho como cantora em 2002 intitulado apenas com o nome Vanessa da Mata. Fez enorme sucesso e foi inevitável ouvir sua voz cantando “Não me deixe só” em muitas rádios. E desse primeiro álbum destaco, entre tantas boas composições, a romântica “Case-se comigo” que é uma canção carregada de sensibilidade principalmente pela exploração das possibilidades vocais de Vanessa combinada com um criterioso arranjo de cordas com assinatura de Jacques Morelenbaum.
Voltando à viagem, que aconteceu agora em 2009, eu estava dirigindo ouvindo um monte de músicas de vários artistas que tocavam aleatoriamente quando fui surpreendido por Vanessa da Mata cantando “Ainda Bem”. Eu já tinha ouvido essa música por milhões de vezes na época do lançamento do álbum “Essa boneca tem manual”, mas nesta ocasião em especial fui pego num excelente momento com tudo perfeito para que me apaixonasse por alguma canção: a solidão da estrada e o descompromisso de ouvir música apenas por divertimento. A música me pegou desavisado e de cara gostei. Somente depois fui prestar mais atenção na voz da cantora, na interpretação, na letra da música, no arranjo. Mas já era tarde demais, já havia sido fisgado. E esse pode ser considerado um típico caso de amor à segunda ouvida.
Depois desse episódio da viagem, fui atrás de todos os álbuns da Vanessa da Mata e desde então comecei a ouvir sua música com mais frequência. em casa, no trabalho, no carro, etc. Não sei explicar, mas suas músicas tem uma alegria pulsante e dão realmente um tom de renovação na música brasileira porque Vanessa da Mata consegue ficar no limiar das coisas. Ela é pop, tem uma música carregada de “brasileirice”, ousa e retrai-se na medida certa. Assim como muitas cantoras, Vanessa da Mata é filha do Tropicalismo. Mas, dentre todas elas, aparenta ser a mais fiel ao espírito Tropicalista justamente por aventurar-se do reggae ao samba – como fez no recente trabalho “Sim” - com uma naturalidade de quem realmente se sente à vontade fazendo isso. Vanessa transmite verdade no que canta e não força a barra para ser nem cult, popular, “eclética”, “de raiz” e nem “antenada”. Sem querer fazer comparações desnecessárias ou injustas, deve-se notar que Vanessa possui uma personalidade musical extrovertida que vai além da suavidade pós-tropicalista adotada por Marisa Monte e que mostra uma musicalidade muito colorida. Depois de Marisa, Vanessa foi o que apareceu de mais intenso e fiel aos propósitos tropicalistas, talvez seja ela a herdeira mais convincente da genética de Gal Costa.
Por toda essa vivacidade, a cantora conquista cada vez mais espaço. E como prova disso, eu mesmo estou aqui falando sobre o quanto tardiamente passei a gostar de seu trabalho que agora faz parte do meu cotidiano. E para fundamentar minhas observações a respeito da obra da cantora, comentarei mais detalhadamente sobre seus álbuns numa série de 3 posts que virá em breve. Sem dúvida, ouvir Vanessa da Mata é mergulhar num mar de divertimento musical.









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12 de agosto de 2009
[...] o prometido, continuo a série “Vanessa da Mata” tecendo um pequeno guia, ou melhor, um pequeno manual (palavra mais adequada à discografia da [...]
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