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“zii e zie” traz tio caetano veloso em plena forma!

24 de setembro de 2009

Música

Aproveitando o ensejo de que Caetano Veloso foi indicado ao Grammy Latino 2009 em três categorias com seu álbum “Zii e Zie” e o clipe “E a música de Tom Jobim”, quero compartilhar minhas impressões sobre esse mais recente trabalho de Caetano que já deu muito o que falar por aí. E deu no que falar com razão, pois…

O novo álbum do Caetano Veloso, “Zii e Zie” (tios e tias), vem confirmar a teoria que há muito cerca a aura do cantor: Caetano é como vinho, fica melhor com o tempo. Sem dúvida alguma ele é uma personalidade ímpar na música brasileira, pois é capaz de suscitar declarações fervorosas de fãs e arrebatar a antipatia dos defensores dos valores puristas da música. Caetano é controverso, multifacetado, compõe, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, obras cheias de lirismo ou canções ácidas denunciando alguma insatisfação particular. Caetano morre e renasce ciclicamente como agora em que está renascido vivendo plenamente a “era Cê”. Com esse novo álbum Caetano foi generoso ao deixar que, de certa forma, o público participasse de seu processo criativo através das novas canções que nasciam e apareciam no seu show-blog “Obra em Progresso”. A generosidade do cantor foi uma excelente estratégia para aproveitar-se da interatividade da internet na promoção do seu show, serviu pra aproximá-lo de seus fãs e, o que é melhor, preparou todo o seu público para a chegada de “Zii e Zie”. Além dos próprios seguidores, Caetano atraiu as atenções da mídia para o seu blog postando livremente seus pensamentos escritos a punho próprio.

O resultado disso tudo foi um excelente disco que expõe quase todas as faces do artista revelando sua jovialidade, sua criatividade exacerbada, sua retórica inquestionavelmente brilhante. Toda a concepção sonora de “Zii e Zie” baseia-se no universo do rock fundido ao samba e, pelo fato de tocar com os mesmos músicos do seu trabalho anterior, há grande semelhança de sonoridade entre o álbum atual e o “Cê” (2006). Talvez “Zii e Zie” possa funcionar como uma continuação sonora da concepção do “Cê” ou algo do gênero. Ou talvez não seja nada disso, mas o fato é que o Caetano está mais rockeiro do que nunca como que reafirmando seu posto de um dos patriarcas do Tropicalismo.

“Zii e Zie” tem pontos altos como na erótica “Tarado ni você” que revela o desespero frenético de um personagem (ou do próprio Caetano?) na perseguição das suas taras;  em “Perdeu” que, com seu jogo de palavras, fala do Rio de Janeiro e suas mazelas e em “Falso Leblon” rock-bolero que faz uma crônica dos dias de hoje regados a drogas, corrupção, prostituição e vidas sendo expostas como espetáculo. É um disco que abusa das guitarras, mas utiliza o violão com a delicadeza que o torna quase que imperceptível ao mesmo tempo em que explora batidas secas da bateria e cria nuances sonoras com teclados usados calculadamente.

O Caetano Veloso voltou a ser aquele cara inquietante, voltou a desafiar as opiniões de seu público original que em grande parte envelheceu e talvez prefira a perfeição harmônica de Chico Buarque. Ao mesmo tempo em que possui este público, que o viu surgir e acompanhou seu crescimento, o compositor tem um grande contingente de fãs jovens conquistados nas décadas de 80 e 90 e continua a arrebanhar um considerável conjunto de novos fãs recém apresentados à sua obra. Quando se pensa que o tio Caetano poderia estar entregue ao conformismo que em geral chega aos artistas após muitos anos de sucesso e de idade, ele reaparece mostrando que a chama ainda está acesa, que ainda está em busca de novas estéticas.

“Zii e Zie” é um álbum para não parar de ouvir. E esse Caetano ainda vai dar muito o que falar!

Ouça Muito:

Sem Cais: Agradável balada com um swing instigante que ganha os ouvidos por ter uma letra direta abordando algo tão comum no ser humano: o desejo pelo outro. É daquele tipo que tem um refrão irresistivelmente romântico e sua harmonia em tom menor aliada ao ritmo a faz ser uma canção sexy, jovial e moderna.

A cor amarela: Aumente o volume e ouça este indiscutível axé que só Caetano poderia compor. É uma música dançante e festiva que exalta a lasciva beleza da mulher negra brasileira. Facílima de aprender, boa pra ouvir (e até dançar), do tipo que vicia!

Preste atenção:

Por quem?: Melancólica canção que se desenrola num arranjo arrastado com um violão de base. Caetano explora os falsetes na sua expressão dolorida a queixar-se de algo nostálgico vivido em outro tempo que não parece estar tão distante do agora, é uma lembrança recente. A interessante harmonia lânguida conduz o ouvinte a um estado de lerdeza, tristeza e prazer.

Lapa: O saudosismo impera nessa canção que tem a o bairro da Lapa como fator aproximador de personalidades como Guinga, Lula e Fernando Henrique Cardoso. A letra revela a Lapa de ontem e de hoje como que coexistindo num mesmo tempo; Caetano fala de saudade, mas olha para o futuro felicitando as novas gerações e os ritmos que abrigaram (e ainda abrigarão) a Lapa.



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Rafael Nolleto - este autor já contribuiu com 22 posts no midiatico.com.


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