O que dizer de um filme que trata sobre transexualidade (e intervenções no corpo) a partir de uma perspectiva tão inusitada e sensível? “A pele que habito” (2011) – mais recente trabalho do cineasta espanhol Pedro Almodóvar – transcende aquilo que se propõe a ser: um filme. É uma narrativa densa e, por isso mesmo, cheia de matizes que oscilam entre a obscuridade e a claridade, entre o romântico e o maquiavélico, entre o prosaico e o bizarro. Talvez seja esta a “assinatura” de Almodóvar: o fato de conseguir aproximar pólos emocionais extremos e, assim, criar personagens complexos e absolutamente reais.
Após muitas tentativas, finalmente, nos últimos dias de 2011, consegui arrumar um jeito de ir assistir ao filme. Saí do cinema encantado com a capacidade discursiva que o filme possui, trazendo polêmica, suspense, uma grande história de amor e abordando uma série de temas transversais pertinentes às temáticas da sexualidade e das representações sociais acerca do corpo humano.
Almodóvar conseguiu produzir uma obra que demonstra toda a sua maturidade criativa, evidenciando o amplo domínio que possui da linguagem cinematográfica ao transformar em imagens uma trágica história de amor entre um homem e sua primeira esposa.
Complexidade talvez seja a palavra ideal para qualificar o tom impresso na construção das personagens que Almodóvar colocou na trama. Robert Ledgard (vivido por Antonio Banderas) é um bom exemplo de como a personalidade e a identidade das personagens foram elaboradas a partir de uma surpreendente combinação emocional com raízes profundas na biografia de cada um deles; histórias de vida que, numa sequência muito bem planejada no roteiro do filme, são apresentadas no decorrer do enredo.
Assim, as personagens ganham um colorido real às suas falas e ações, pois não se manifestam como personalidades “planas”, cuja atuação sempre se dá de forma unilateral, num único sentido, com intenções previsíveis e objetivos lineares. Pelo contrário, as personagens de Almodóvar deixam patente o peso de suas trajetórias – marcadas por fatores culturais e subjetivos – na manifestação de toda e qualquer intenção com que se expressam para o mundo ao seu redor. E é assim que aparece Marília (interpretada por Marisa Paredes), uma “típica” mãe católica espanhola, mas que possui um passado controverso do qual prefere distanciar-se em pensamento. Também se pode dizer o mesmo de Zeca (Roberto Álamo), um filho ao mesmo tempo amoroso e desnaturado. Mas, provavelmente, as maiores contradições ou melhores combinações estejam mesmo presentes em Ledgard (Banderas), um cirurgião plástico que seria obviamente tachado como inescrupuloso, mas que esconde em suas ações uma estranha mobilização que encontra justificativa num sentimento geralmente denominado por nós como “amor”.
Mas dentre todos os temas destrinchados, “A pele que habito” aborda, essencialmente, a temática da fluidez das identidades sexuais e de gênero, principalmente quando evidencia a possibilidade de reconfiguração dessas identidades ou, também, de manutenção de uma mesma identidade – psicologicamente percebida e reconhecida pelo sujeito que a possui – ainda que o corpo tenha sido alterado. Aliás, a discussão de limites éticos, psicológicos, sociais e culturais acerca das formas e graus de intervenção estética no corpo humano é um grande tema subjacente à todo enredo. Tal temática ganha, literalmente, “corpo” a partir de toda a narrativa que nos leva a conhecer a história de Vera (com brilhante interpretação de Elena Anaya), uma mulher misteriosa que passa por inúmeras transformações físicas e psicológicas.
Nada é colocado ao acaso. Nenhum diálogo possui ressonância no vazio. E, ao chegar ao fim do filme, é inevitável constatar tanto a importância da dimensão simbólica atrelada à prática de ioga pela personagem Vera (Anaya) quanto o significado emocional dos cortes de tecido (extraídos de seus próprios vestidos) que ela realizava no intuito de confeccionar esculturas com forte expressividade corporal.
Outro aspecto que merece destaque é o fato de que Almodóvar conseguiu produzir um filme que escapou de possíveis estereótipos de regionalismos típicos da Espanha. Dessa forma, é possível perceber que construiu uma obra não situada em exatamente em alguma localidade, mas com possibilidades de figurar em qualquer lugar, pois o seu fio condutor é pautado em emoções universais do ser humano. Assim, o cineasta investiu em aspectos imagéticos que misturam a estética de filmes de ficção científica e suspense, construindo uma ambientação antiga aliada à contemporaneidade, confrontando o exercício de uma medicina simultaneamente asséptica e contaminada. Mas é possível enxergar a paisagem espanhola presente na casa/clínica de Ledgard (Banderas) enquanto o catolicismo pode ser percebido, discretamente, numa das falas de Marília (Paredes) e no crucifixo que ostenta pendurado em seu pescoço. Ou seja, a Espanha está lá representada, embora com maior discrição.
Entretanto, muito mais do que a Espanha, as referências mais latentes estão voltadas para o Brasil. Basta saber que o protagonista, Ledgard, possui ascendência brasileira, motivada tanto pelos diálogos que Almodóvar teve com o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, na década de 1980, quanto pela afirmação do Brasil como um país reconhecido internacionalmente pela qualidade e grande quantidade de processos cirúrgicos de intervenção no corpo.
Além disso, o filme faz referências ao carnaval da Bahia e possui uma inusitada protagonista chamada Gal – suposta homenagem do diretor à cantora brasileira, de quem é amigo, Gal Costa. A personagem Gal aparece num estado vegetativo, salva da morte pelo marido (Ledgard) e, após muito tempo sem demonstrar nenhum tipo de afetividade, “renasce” a partir da música cantada por sua filha Norma. E Gal figura como uma mulher sagrada para o seu próprio esposo, uma mulher que é reconduzida à vida dos afetos pela música e é reconstruída, aos pedaços, e em diferentes tempos históricos, pelas mãos de seu esposo. É também válido especular uma possível relação entre a canção “Vaca Profana” – composta por Caetano Veloso para a interpretação de Gal Costa e na qual há referências à “Movida Madrileña” (da qual Almodóvar foi um dos pilares nos anos 1980 – e a suposta homenagem que o cineasta fez para a artista brasileira. Sob a pele de Almodóvar, todas as especulações tornam-se possíveis.
Inclusive, ainda é possível insinuar uma homenagem indireta à cantora Madonna a partir da associação entre Pedro Almodóvar, Antonio Banderas e o estilista Jean-Paul Gaultier. Estranho? Talvez nem tanto. Basta lembrar que, no início dos anos 1990, quando Almodóvar já era um artista de reconhecido talento no circuito alternativo de cinema, Madonna o ajudou a ser catapultado ao sucesso quando o apresentou ao mundo (e junto com ele o ator Antonio Banderas) no histórico documentário “Na cama com Madonna”. Na época, Madonna excursionava diversos países com a emblemática “Blond Ambition Tour”, na qual imortalizou um figurino desenhado por Gaultier: um espartilho com seios pontiagudos especialmente projetado para ela. Em 2011, cerca de vinte anos passados, Gaultier é o estilista escolhido para fazer os figurinos de “A pele que habito”, Antonio Banderas (que aparece no documentário da turnê de Madonna como uma “personalidade” interessante para se conhecer e que futuramente trabalharia com a cantora no filme “Evita”) é o protagonista da trama e Madonna, a própria, é convidada para assistir à pré-estreia do filme. Coincidência?
Falando em música, a participação da cantora Concha Buika ilumina um dos momentos decisivos da história, contrastando a alegria e o romantismo da música de sotaque hispânico com a tensão paralela que cerca o enredo em torno da personagem Norma.
Para mim, foi excelente a experiência de assistir a esse filme justamente num momento em que estou particularmente interessado em compreender a articulação dos movimentos sociais da Espanha em prol da conquista de alguns direitos civis para a população com orientação sexual destoante do modelo hegemônico. Almodóvar é pessoa central nestas conquistas, sobretudo por sua contribuição estética, nos anos 1980, durante o que se convencionou chamar de “Movida Madrileña”. E a própria Espanha é hoje vista, internacionalmente, como um país pioneiro no que diz respeito ao reconhecimento de direitos civis (contração de matrimônio, adoção, alteração de nome e de sexo nos documentos civis) para homossexuais, travestis e transexuais. Sobretudo a partir da promulgação da lei 13/2005, na qual reconhece como legítimo o casamento civil entre pessoas de qualquer sexo e orientação sexual. Não por acaso, a trama de “A pele que habito” se passa a partir do ano de 2006, período em que esses aspectos se tornam mais amplamente discutidos.
Imagino quantos debates acadêmicos já não estão sendo produzidos a partir desse filme. Trata-se de um prato cheio para todos aqueles, inclusive eu, que se dedicam à discussão das identidades sexuais, sobretudo a partir de um viés antropológico. Não me cabe aqui fazer um diálogo com textos científicos que tratam dessas temáticas, mas apenas registrar as impressões que tive e deixar que o debate se faça como e onde deve ser feito.
A “assinatura” de Almodóvar está em cada cena: no dramalhão de dois irmãos que não sabem de seu próprio parentesco, nos assassinatos passionais, nas cenas de sexo às vezes cômicas e no aspecto engraçado e dramático com que mostra o uso de alargadores de vagina para pessoas que recentemente passaram por um processo de transgenitalização.
“A pele que habito” é um filme que trabalha com diversos medos masculinos. Embaraça as fronteiras entre os conceitos de feminilidade e masculinidade. Reconduz os desejos heterossexuais para uma perspectiva homossexual. Lança nuances lésbicas como possibilidades de resolução de um sentimento não correspondido no passado. E o que dizer de um filme que consegue promover tão amplo espectro de possibilidaes com tamanha sensibilidade artística? Simplesmente, uma obra de arte.
















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