
Há 10 anos lembro de ter visto estampada na capa da revista Caras a foto de um casal de namorados no meio do oceano. Pensei que as pessoas estavam loucas por invadirem a privacidade de um casal que naquele momento desfrutava de momentos íntimos e pedia apenas privacidade.
Naquela época essa invasão de privacidade me chocava. Hoje, temos o inverso, a evasão de privacidade. Celebridades saem só de calcinha, ou sem calcinha, desfilam na frente da delegacia, raspam o cabelo em público, fumam todo tipo de cigarro na frente das câmeras… todas as pessoas/celebridades vivem uma busca incessante pela fama, numa dependência crônica da mídia, a qual suga cada detalhe de suas vidas sem dó. Os dois lados saem ganhando e/ou perdendo.
Mal sabia que, semanas depois, aquele casal de namorados morreria numa perseguição por mais uma foto, mais um click. Era tarde da noite quando ouvi no rádio uma notícia interrompendo uma de minhas músicas favoritas – é, nessa época a internet era quase inexistente, celular um objeto muuito caro, eu nao tinha nem blog, iPod e o rádio era um companheiro bastante presente na minha vida- "Princesa Diana está em estado grave em Paris e seu namorado não resistiu aos ferimentos". Como assim? A princesa Diana e seu namorado? Que namorado? Ah, aquele da capa da Caras!
Imediatemente, fui até à sala, interrompi um filme que todos assistiam, e coloquei na CNN e qual foi a primeira imagem que vi? O carro da Princesa totalmente destruído. Um produto instantâneo oferecido pela mídia para o deleite de um ávido público consumidor.

Toda a mídia se tranformou num único olho, numa única boca, repetiam as mesmas palavras "Diana, princesa, Princesa do Povo, Paris, paparazzi, morta…" Ninguém ficou imune àquele evento midiático. Sim, foi o maior evento midiático que vivenciei até hoje. Um evento em que os protagonistas não pediram para acontecer, não mandaram que seus assessores divulgassem toda a agenda da semana, não colocaram o último vídeo no Youtube (que ainda não existia, claro), nem distribuíram fotos inéditas, etc e etc.
Foi o mais longo evento midiático que vivi, durou anos, até chegar ao seu final dramático, tal qual uma novela das 8, mas assistida por todo o planeta simultaneamente. Bilhões de pessoas assistiram ao casamento da Princesa Diana com Charles e bilhões assistiram ao seu funeral. Eu ainda não tinha lido o livro de Neal Gabler (o qual foi lançado um ano depois), e muito menos estudava Publicidade naquela época, mas sabia que a mídia mundial vivia algo histórico, ímpar e que o entretenimento se misturava à realidade a tal ponto que não podíamos mais separar uma coisa da outra.
Em 1997, eu lá com os meus 19 anos, pensei que as coisas mudariam, que o número de revistas de fococas nas bancas diminuiria, que as celebridades se importariam mais com seu trabalho, e procurariam ser "célebres" e não medíocres. Mas, eu estava enganado. Novas revistas nasciam a cada dia, mais celebridades sem cérebro e sem ser "célebres" foram criadas e jogadas para nosso consumo.

Agora só nos resta consumir a patricinha, a caipira, o branquelo, a cantora que só faz playback, a modelo suicida, a celebridade drogada… Vamos consumir tudo e todos. Afinal se matamos uma princesa, qualquer um serve hoje em dia.











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